1VRP/SP: EMENTA NÃO OFICIAL: ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA DE IMÓVEL – INSTITUIÇÃO DE CONDOMÍNIO – ABERTURA DE MATRÍCULAS AUTÔNOMAS – INDICAÇÃO DO CREDOR FIDUCIÁRIO COMO PROPRIETÁRIO – PROPRIEDADE RESOLÚVEL – TRANSFERÊNCIA DOMINIAL DECORRENTE DO REGISTRO DA GARANTIA – DISTINÇÃO ENTRE PROPRIEDADE FIDUCIÁRIA E MERO GRAVAME – DIREITOS DO DEVEDOR FIDUCIANTE – RETIFICAÇÃO REGISTRAL – INEXISTÊNCIA DE ERRO OU OMISSÃO – MANUTENÇÃO DA QUALIFICAÇÃO NEGATIVA.


Processo 1016106-06.2026.8.26.0100

Pedido de Providências – Registro de Imóveis – Travessia Securitizadora S/A – Diante do exposto, JULGO PROCEDENTE o pedido de providências para manter o óbice à retificação das matrículas. Sem custas, despesas processuais ou honorários advocatícios. Oportunamente, ao arquivo. P.I.C. – ADV: (…)

Íntegra da decisão:

SENTENÇA

Processo Digital nº: 1016106-06.2026.8.26.0100

Classe – Assunto Pedido de Providências – Registro de Imóveis

Requerente: (…)º Oficial de Registro de Imóveis de São Paulo

Requerido: Travessia Securitizadora S/A

Juiz(a) de Direito: Dr(a). Luciana Carone Nucci Eugênio Mahuad

Vistos.

Trata-se de pedido de providências instaurado pelo (…)º Oficial de Registro de Imóveis (…) a requerimento de TRAVESSIA SECURITIZADORA S.A. e VE 103 EMPREENDIMENTO IMOBILIÁRIO SPE LTDA, em razão da negativa de retificação da titularidade constante das matrículas n. 232.101 a 232.239 daquela serventia, abertas por ocasião da instituição do condomínio do empreendimento denominado Le Village Casa Verde (protocolo AC015899411, de 30 de julho de 2026).

O Oficial esclarece que, pelo R.71 da matrícula n. 180.035, foi registrada alienação fiduciária pela qual VE 103 EMPREENDIMENTO IMOBILIÁRIO SPE LTDA, na qualidade de devedora fiduciante, transferiu à TRAVESSIA SECURITIZADORA S.A., credora fiduciária, a propriedade resolúvel da fração ideal correspondente a 90,7784% do imóvel; que, posteriormente, foi registrada a instituição do condomínio e foram abertas as matrículas autônomas n. 232.101 a 232.239; que, em razão da propriedade fiduciária anteriormente constituída, as matrículas correspondentes à fração ideal objeto da garantia foram abertas em nome da credora fiduciária como proprietária, constando a alienação fiduciária entre os registros anteriores.

O Registrador sustenta que a técnica empregada está correta, pois, nos termos dos artigos 22 e 23 da Lei n. 9.514/1997, a alienação fiduciária transfere ao credor fiduciário a propriedade resolúvel do imóvel, constituindo-se a propriedade fiduciária mediante o registro do contrato; que, com o registro, ocorre o desdobramento da posse, tornando-se o fiduciante possuidor direto e o fiduciário possuidor indireto; que o pagamento da dívida resolve a propriedade fiduciária, hipótese em que o registro é cancelado, enquanto o inadimplemento, após o procedimento legal, conduz à consolidação da propriedade em nome do fiduciário; que, como a propriedade fiduciária já havia sido constituída sobre a matrícula matriz antes da instituição do condomínio, a credora fiduciária passou a ostentar a propriedade resolúvel correspondente às unidades integrantes do empreendimento atingidas pela garantia, motivo pelo qual as novas matrículas foram abertas em seu nome; que essa forma de lançamento não descaracteriza a natureza resolúvel da propriedade nem transforma a propriedade fiduciária em propriedade plena; que a condição resolutiva decorre do próprio registro anteriormente efetuado e do regime legal da alienação fiduciária.

O Oficial observa que, das 139 matrículas abertas, 126, relativas à fração ideal de 90,7784%, foram abertas em nome de TRAVESSIA SECURITIZADORA S.A., circunstância que decorreu da alienação fiduciária anteriormente registrada; que as matrículas e as informações nelas publicizadas estão em consonância com a legislação e com a jurisprudência administrativa; que não há erro a ser corrigido, uma vez que a forma dos atos não alterou o direito das interessadas; que a compreensão adotada encontra respaldo no tratamento conferido às ordens de indisponibilidade dirigidas ao devedor fiduciante; que, constituída a propriedade fiduciária, eventual indisponibilidade contra o fiduciante não pode alcançar a propriedade do imóvel transmitida ao credor fiduciário, recaindo apenas sobre os direitos conservados pelo devedor; que a jurisprudência administrativa admite, inclusive, a consolidação da propriedade em nome do fiduciário não obstante indisponibilidade averbada contra o fiduciante, justamente porque a propriedade já não integra o patrimônio deste último.

O Registrador cita, a esse propósito, precedentes da Corregedoria Geral da Justiça e do Conselho Superior da Magistratura, ressaltando o entendimento de que a alienação fiduciária transfere ao credor a propriedade resolúvel, permanecendo ao devedor fiduciante direito real de aquisição, de conteúdo patrimonial, sobre o qual podem recair constrições ou indisponibilidades.

Por fim, esclarece que algumas das matrículas já tiveram posteriormente cancelada a condição fiduciária, com retorno da propriedade ao devedor fiduciante, enquanto outra se encontrava em fase de registro de transferência da propriedade, situações que foram objeto de protocolos próprios; que tais circunstâncias não representam tratamento contraditório, porque derivam de títulos distintos e de momentos jurídicos diversos.

Documentos vieram às fls. 11/280 e 283/286.

As interessadas apresentaram impugnação às fls. 287/301, sustentando que, pelo R.71 da matrícula n. 180.035, a devedora fiduciante transferiu à credora apenas a propriedade resolúvel da fração ideal atingida pela garantia; que, na matrícula matriz, a alienação fiduciária foi lançada como ato registral, tendo a incorporadora permanecido indicada como coproprietária; que esta é a técnica correta e deveria ter sido reproduzida quando da abertura das matrículas das unidades autônomas; que a condição de credora fiduciária não deve resultar na indicação de TRAVESSIA SECURITIZADORA S.A. no campo destinado à proprietária das unidades por se tratar de propriedade resolúvel constituída exclusivamente em garantia; que a técnica adotada nas matrículas derivadas inverteu a sistemática observada na matrícula matriz; que a titularidade da fiduciante e a existência da garantia devem ser retratadas separadamente, preservando-se a publicidade sobre a natureza fiduciária da relação; que o lançamento adotado pode produzir repercussões práticas e registrais não correspondentes ao conteúdo econômico e funcional da garantia. Documentos às fls. 302/470.

O Ministério Público opinou pela manutenção da qualificação negativa (fls. 474/478).

É o relatório. Fundamento e decido.

De início, é importante ressaltar que o Registrador, titular ou interino, dispõe de autonomia e independência no exercício de suas atribuições, podendo recusar títulos que entender contrários à ordem jurídica e aos princípios que regem sua atividade (art. 28 da Lei n° 8.935/1994), o que não se traduz como falha funcional.

De fato, no sistema registral, vigora o princípio da legalidade estrita, pelo qual somente se admite o ingresso de título que atenda aos ditames legais.

Em outras palavras, o Oficial, quando da qualificação registral, perfaz exame dos elementos extrínsecos do título à luz dos princípios e normas do sistema jurídico (aspectos formais), devendo obstar o ingresso daqueles que não se atenham aos limites da lei.

É o que se extrai do item 117 do Cap. XX das Normas de Serviço:

“Incumbe ao oficial impedir o registro de título que não satisfaça os requisitos exigidos pela lei, quer sejam consubstanciados em instrumento público ou particular, quer em atos judiciais”.

No mérito, o pedido é procedente. Vejamos os motivos.

Nos termos do artigo 22 da Lei n. 9.514/1997, a alienação fiduciária de coisa imóvel constitui negócio jurídico pelo qual o fiduciante, com escopo de garantia, transfere ao credor fiduciário a propriedade resolúvel de coisa imóvel.

O artigo 23 da mesma lei dispõe, por sua vez, que a propriedade fiduciária de coisa imóvel se constitui mediante o registro do contrato que serve a ela de título.

A primeira premissa para solução da controvérsia, portanto, é que a alienação fiduciária imobiliária regularmente registrada não constitui mero gravame incidente sobre propriedade que continue pertencendo ao fiduciante.

Há efetiva transferência da propriedade.

Embora resolúvel e funcionalmente afetada à garantia da obrigação, a propriedade transmitida ao credor não deixa, por isso, de ser propriedade.

É exatamente neste ponto que a tese das interessadas não pode ser acolhida.

A circunstância de a propriedade fiduciária sujeitar-se a condição resolutiva diz respeito à natureza e à duração do direito transmitido, mas não elimina a transmissão dominial produzida pelo registro.

A propriedade resolúvel está submetida à possibilidade de resolução diante do implemento da condição legal e contratual, mas, enquanto não resolvida, é direito real de propriedade pertencente ao fiduciário.

O próprio regime legal evidencia essa conclusão.

O artigo 25 da Lei n. 9.514/1997 estabelece que, com o pagamento da dívida e de seus encargos, resolve-se a propriedade fiduciária do imóvel, cabendo ao Oficial cancelar o respectivo registro mediante a apresentação do termo de quitação.

É dizer: a propriedade retorna ao fiduciante justamente porque, antes desse fato, encontra-se no patrimônio jurídico do credor fiduciário.

De outro lado, não paga a dívida e regularmente constituído em mora o fiduciante, a lei prevê a consolidação da propriedade em nome do fiduciário.

A consolidação não representa a primeira aquisição da propriedade pelo credor. Representa a alteração qualitativa da propriedade que aquele já ostentava, até então fiduciária e resolúvel, em consequência do inadimplemento e do procedimento previsto em lei.

A distinção entre propriedade fiduciária e propriedade consolidada é, portanto, essencial, mas não ampara a conclusão pretendida pelas interessadas.

Antes da consolidação, o credor é proprietário fiduciário.

Após a consolidação, desaparece a condição fiduciária nos termos da disciplina legal aplicável.

Em nenhuma dessas fases, enquanto subsistente a alienação fiduciária regularmente registrada, o devedor fiduciante permanece titular da propriedade plena do imóvel.

Nesse sentido, a formulação apresentada pelo Oficial acerca das ordens de indisponibilidade é pertinente não apenas como precedente administrativo (processos de autos n. 1023352-12.2023.8.26.0309 e 0000163-60.2025.8.26.0565), mas também como demonstração da consequência lógica do regime legal.

A indisponibilidade decretada contra o fiduciante não pode alcançar a própria propriedade do bem transmitida anteriormente ao credor fiduciário. O que integra o patrimônio jurídico do fiduciante, após o registro da garantia, são os direitos que a lei e o contrato reservam a ele, inclusive o direito real à aquisição da propriedade com a extinção da obrigação.

Por isso, a jurisprudência indicada pelo Registrador admite que a indisponibilidade contra o fiduciante recaia sobre os direitos deste, sem impedir, por si só, a consolidação da propriedade fiduciária anteriormente constituída.

Essa compreensão também é coerente com precedente desta Vara em matéria de alienação fiduciária, no qual já se consignou que a constituição da garantia produz efeitos jurídico-reais próprios, não podendo a propriedade fiduciária ser confundida com simples relação obrigacional ou gravame sem repercussão dominial (pedido de providências de autos n. 1013258-46.2026.8.26.0100).

Também não prospera o argumento fundado na forma como o R.71 foi graficamente lançado na matrícula n. 180.035.

O conteúdo jurídico do registro decorre do título e da lei e não da posição gráfica em que o nome das partes aparece na matrícula.

Se o R.71 constituiu alienação fiduciária regularmente registrada, a consequência jurídica prevista nos artigos 22 e 23 da Lei n. 9.514/1997 ocorreu independentemente de a folha de matrícula continuar trazendo a fiduciante em campo anteriormente destinado à indicação do titular dominial.

Em outras palavras, a aparência gráfica da matrícula matriz não prevalece sobre a mutação jurídico-real produzida pelo registro.

A solução contrária levaria a admitir que, não obstante a lei expressamente determine a transferência da propriedade resolúvel ao credor, a permanência do nome do fiduciante no cabeçalho ou no campo de proprietário fosse suficiente para conservar o domínio. Isso esvaziaria os efeitos constitutivos do próprio registro da propriedade fiduciária.

Aqui reside, igualmente, a diferença entre o caso concreto e verdadeira hipótese de retificação registral.

Nos termos do artigo 212 da Lei n. 6.015/1973, a retificação é cabível quando o registro ou a averbação for omisso, impreciso ou não exprimir a verdade.

Já o artigo 213, I, “a”, da lei permite a correção, de ofício ou a requerimento, de omissão ou erro cometido na transposição de elemento do título.

Nenhuma dessas hipóteses se verifica.

Quando abertas as matrículas derivadas, a fração ideal correspondente já se encontrava submetida a alienação fiduciária anteriormente registrada. Logo, o domínio resolúvel já havia sido transmitido à credora fiduciária.

A abertura das matrículas autônomas não criou a alienação fiduciária nem operou nova transmissão em favor da credora. Apenas individualizou objetivamente os imóveis resultantes da instituição condominial e transportou para as novas matrículas a situação jurídico- real que incidia sobre a matrícula de origem.

Assim, a indicação da credora fiduciária como proprietária das unidades alcançadas pela garantia não altera o R.71. Dá consequência registral à transferência dominial que aquele registro já havia produzido.

A pretensão das interessadas, ao contrário, parte da premissa de que a alienação fiduciária poderia ser tratada, na matrícula autônoma, como mero ônus que convivesse com a permanência da fiduciante na condição de proprietária.

Essa premissa não encontra amparo no regime dos artigos 22 e seguintes da Lei n. 9.514/1997.

Não se ignora que a propriedade da credora é resolúvel nem que o fiduciante conserva direitos próprios sobre o imóvel.

Esses direitos, porém, não se confundem com titularidade dominial.

O devedor fiduciante conserva a posse direta e o direito real de aquisição da propriedade, situação jurídica de expressão patrimonial, além das demais posições jurídicas previstas em lei e no contrato. Justamente por isso é possível que constrições dirigidas ao fiduciante incidam sobre seus direitos, sem que alcancem a propriedade fiduciária pertencente ao credor.

Também não demonstra erro o fato de, posteriormente, algumas matrículas terem voltado a refletir titularidade do fiduciante após o cancelamento da garantia.

Ao contrário, essa circunstância acompanha a própria dinâmica da propriedade resolúvel: extinta a alienação fiduciária pelo pagamento e cancelado o respectivo registro, cessa o direito resolúvel do fiduciário e recompõe-se a titularidade do fiduciante, sem que isso signifique que o credor jamais tenha sido proprietário.

Da mesma maneira, eventual transferência de unidade ou cancelamento da garantia decorrente de título superveniente deve receber qualificação própria, como corretamente ressaltado pelo Oficial.

A diversidade do estado jurídico atual de algumas matrículas não evidencia contradição na técnica adotada quando de sua abertura.

O precedente desta Vara no pedido de providências n. 1001473-87.2026.8.26.0100 também auxilia na solução.

Naquela oportunidade, assentou-se que os artigos 212 e 213 da Lei n. 6.015/1973 não autorizam a retificação para modificar a substância da situação jurídica regularmente resultante do título registrado.

A retificação, como já ressaltado, pressupõe registro omisso, impreciso ou que não exprima a verdade, não constituindo instrumento destinado a conformar o fólio a interpretação jurídica diversa daquela resultante do negócio efetivamente celebrado e registrado.

Aqui, o R.71 produziu justamente o efeito que a Lei n. 9.514/1997 atribui ao registro da alienação fiduciária: transferência da propriedade resolúvel à credora.

Não há erro de transposição a corrigir.

Há, na realidade, divergência das interessadas quanto à maneira pela qual esse direito deve ser exteriorizado nas matrículas autônomas.

Tal divergência, porém, não autoriza retificação fundada no artigo 213, I, “a”, da Lei de Registros Públicos quando a técnica adotada traduz adequadamente a titularidade jurídico-real resultante do título registrado.

Consequentemente, não se verifica fundamento para que VE 103 EMPREENDIMENTO IMOBILIÁRIO SPE LTDA volte a constar como proprietária das unidades abrangidas pela alienação fiduciária enquanto subsistente a propriedade fiduciária de TRAVESSIA SECURITIZADORA S.A.

Diante do exposto, JULGO PROCEDENTE o pedido de providências para manter o óbice à retificação das matrículas.

Sem custas, despesas processuais ou honorários advocatícios.

Oportunamente, ao arquivo.

P.I.C.

São Paulo, 13 de outubro de 2026.

Luciana Carone Nucci Eugênio Mahuad

Juiz de Direito (DJEN de 14.10.2026 – SP)


Fonte: DJEN 

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CSM/SP: Recurso de apelação – Dúvida – Direito registral – Registro de imóveis – Escritura pública de inventário e partilha – Divergência entre o CPF constante da matrícula e o CPF indicado no título – Princípios da especialidade subjetiva, da continuidade e da segurança jurídica – Necessidade de retificação instruída com documento oficial idôneo – Insuficiência de mera declaração particular – Matrícula por transporte – Inaplicabilidade da dispensa quando ausente coincidência de dados – Recurso não provido


Apelação Cível nº 1001758- 98.2025.8.26.0655

Espécie: APELAÇÃO
Número: 1001758- 98.2025.8.26.0655
Comarca: VÁRZEA PAULISTA

PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

CONSELHO SUPERIOR DA MAGISTRATURA

Apelação Cível nº 1001758- 98.2025.8.26.0655

Registro n°: 2026.0000973922

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível nº 1001758- 98.2025.8.26.0655, da Comarca de Várzea Paulista, em que é apelante ROSILANE CRISTINA DALPOZ, é apelado OFICIAL DE REGISTRO DE IMÓVEIS E ANEXOS DA COMARCA DE VÁRZEA PAULISTA.

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da Conselho  Superior da Magistratura do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: Negaram provimento ao recurso. V. U., de conformidade com o voto do(a) relator(a), que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores FRANCISCO EDUARDO LOUREIRO (PRESIDENTE TRIBUNAL DE JUSTIÇA) (Presidente), LUÍS FRANCISCO AGUILAR CORTEZ (VICE PRESIDENTE), DAMIÃO COGAN (DECANO), ROBERTO MAC CRACKEN (PRES. SEÇÃO DE D. PRIVADO), LUCIANA BRESCIANI (PRES. SEÇÃO DE DIREITO PÚBLICO) E ROBERTO SOLIMENE (PRES. SEÇÃO DE DIREITO CRIMINAL).

São Paulo, 7 de outubro de 2026.

SILVIA ROCHA

Corregedora Geral da Justiça e Relatora

Apelação Cível nº 1001758-98.2025.8.26.0655

Apelante: Rosilane Cristina Dalpoz

Apelado: Oficial de Registro de Imóveis e Anexos da Comarca de Várzea Paulista

Comarca: Várzea Paulista

Voto nº 39.957

Recurso de apelação – Dúvida – Direito registral – Registro de imóveis – Escritura pública de inventário e partilha – Divergência entre o CPF constante da matrícula e o CPF indicado no título – Princípios da especialidade subjetiva, da continuidade e da segurança jurídica – Necessidade de retificação instruída com documento oficial idôneo – Insuficiência de mera declaração particular – Matrícula por transporte – Inaplicabilidade da dispensa quando ausente coincidência de dados – Recurso não provido.

Trata-se de apelação interposta por Rosilane Cristina Dalpoz contra sentença prolatada pela MMª Juíza Corregedora Permanente da 2ª Vara da Comarca de Várzea Paulista/SP, que julgou procedente dúvida suscitada pelo Oficial de Registro de Imóveis, Títulos e Documentos e Civil de Pessoa Jurídica de Várzea Paulista (fls. 139/142).

A dúvida teve origem na negativa de registro de escritura pública de inventário e partilha, lavrada em 02/09/2024, pelo 4º Tabelião de Notas da Comarca de Jundiaí (fls. 26/31), relativa aos bens deixados por Ivanir Gração Dalpoz, figurando a apelante como herdeira. O título tem por objeto o imóvel matriculado originariamente sob nº 114.576 no 2º Registro de Imóveis da Comarca de Jundiaí, cuja circunscrição foi transferida à serventia suscitante a partir de 30/11/2009, assim demandando prévia abertura de matrícula por transporte.

Por meio da Nota de Devolução nº 34.145 (fls. 22/24), o Oficial apontou infringência aos princípios registrários da especialidade e continuidade subjetivas, em razão de divergência referente ao número de CPF do proprietário tabular e viúvo-meeiro, Osvaldo Dalpoz: enquanto na certidão de matrícula consta a inscrição 101.993.208 (incompleta), o título apresentado indica o número 058.482.619-20.

Notificada, a interessada sustentou tratar-se de mero erro de datilografia do cartório, passível de ser sanado por declaração particular firmada pelo próprio titular (fls. 57). O Oficial, por sua vez, reputou a declaração insuficiente, exigindo documento oficial idôneo, expedido pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, apto a comprovar a identidade cadastral do titular.

A d. representante do Ministério Público, em primeiro grau, manifestou-se pela procedência da dúvida (fls. 115/116).

Sobreveio sentença julgando procedente a dúvida (fls. 139/142). Opostos embargos de declaração (fls. 145/150), foram eles rejeitados (fls. 151/153).

Em suas razões recursais (fls. 156/172), a apelante sustenta, em síntese: (i) a desnecessidade de retificação prévia, por se tratar de matrícula por transporte, nos termos do subitem 58.2, Cap. XX, Tomo II, das NSCGJ; (ii) que a divergência do CPF configura mera irregularidade formal, plenamente sanável, incapaz de comprometer a identificação do titular, cujos demais dados de qualificação são coincidentes, podendo o número de inscrição ser suprido por outros elementos (art. 176, § 1º, II, 4, “a”, da Lei nº 6.015/73); e (iii) a impossibilidade material de cumprimento de exigências relativas a documentos fiscais da década de 1970. Aponta, ainda, a regularidade do regime de bens (comunhão universal). Requer, assim, o provimento do recurso, julgando-se improcedente a dúvida.

A Douta Procuradoria Geral de Justiça opinou pelo não provimento do recurso (fls. 188/192).

É o relatório.

A apelação não comporta provimento.

Ao registrador compete a qualificação dos títulos apresentados a registro, incumbindo-lhe rejeitá-los quando em desconformidade com a legislação registrária e demais preceitos da ordem jurídica (item 117, Cap. XX, Tomo II, NSCGJ).

Insurge-se a apelante contra exigência do Oficial relativa a incontroversa divergência constatada entre o número de CPF do proprietário tabular, o viúvo-meeiro Osvaldo Dalpoz, tal como lançado na matrícula de origem (101.993.208 incompleto) e aquele indicado no título de inventário (058.482.619-20).

Para solução da dissonância e viabilização do registro, fez-se constar na nota devolutiva (fls. 23):

“Assim, se a inscrição correta for a do assento imobiliário, deverá ser retificado o título, mediante ato notarial próprio, para a especialização subjetiva do proprietário. Em caso contrário, deverão os interessados tabulares formularem requerimento específico, com suas firmas reconhecidas, para a averbação corretiva imobiliária, à luz dos artigos 212 e 213, inciso I, letra ‘g’, da Lei Federal nº 6.015, de 31 de dezembro de 1.973 Lei dos Registros Públicos (LRP), com a nova redação implementada pela Lei Federal nº 10.931, de 02 de agosto de 2.004, instruído de certidão expedida pela Secretaria da Receita Federal, noticiando o cancelamento da inscrição nº 101.993.208, e que o proprietário OSVALDO DALPOZ é, atualmente, titular da inscrição nº 058.482.619-20” (destaques no original).

Esta é a única exigência registral. Ao contrário do alegado, não foram exigidas comprovação de regime de bens matéria reconhecida expressamente como superada pelo suscitante (fls. 7) nem documentação fiscal contemporânea à aquisição do imóvel (década de 1970) mera sugestão de alternativa probatória (fls. 10).

Quanto ao óbice controvertido, a sentença não merece reparo.

A especialidade subjetiva demanda algo mais que a mera identificação nominal do titular do domínio. Exige sua individualização por meio de qualificação integral, com todos os dados indicados no art. 176, § 1º, II, 4, da Lei nº 6.015/73, bem como no item 61, Cap. XX, Tomo II, das NSCGJ. Entre tais dados figura, expressamente, o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF).

Essa amplitude do princípio da especialidade subjetiva reverbera sobre a aplicação do princípio da continuidade. Conforme os artigos 195 e 237 da Lei n. 6.015/1973, a cadeia de titularidade deve ser ininterrupta e espelhar a realidade jurídica (princípio da continuidade). A observância do princípio da continuidade não se basta com a mera verificação de identidade entre o titular de direitos constante da matrícula e o transmitente de direitos constante do título: todos os dados de qualificação do transmitente constantes do título devem corresponder aos dados do titular de direitos constantes da matrícula, para que ninguém transmita direitos de que não seja titular e de que, portanto, não possa dispor.

Nesse sentido, os dados qualificadores do titular constantes da matrícula devem corresponder rigorosamente aos do título, de modo a assegurar a integral coincidência entre a situação jurídica retratada no registro e aquela retratada no documento apresentado. Dessa forma, preserva-se, sob o aspecto subjetivo, a cadeia de transmissões e a certeza quanto à pessoa do titular do direito real. Não por outro motivo, “a especialidade subjetiva determina que os titulares dos direitos registrados sejam os mesmos constantes do título, inclusive quanto a sua qualificação pessoal”. (BENACCHIO, Marcelo; PASSOS, Josué Modesto. A dúvida no registro de imóveis. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2022, p. 117).

O número de CPF, longe de constituir dado meramente acessório, assumiu centralidade no sistema de identificação civil nacional, integrando a Carteira de Identidade Nacional como documento único e seguro de identificação (Decreto nº 10.977/2022), o que reforça a necessidade de sua exatidão no fólio real. Divergindo o CPF entre a matrícula e o título, instaura-se incerteza quanto à identidade do titular do domínio, o que é de todo incompatível com a presunção de veracidade que emana do assento imobiliário.

Os artigos 212 e 213, I, “a” e “g”, da Lei nº 6.015/73, autorizam a retificação de erro cometido na transposição de elementos do título e a inserção ou modificação de dados de qualificação pessoal das partes, desde que “comprovada por documentos oficiais”. Nada mais elementar que a retificação de dado de identificação em registro público não se contente com mera declaração particular.

Nesse sentido, a singela declaração particular firmada pelo interessado Osvaldo Dalpoz (fls. 57), conquanto possa indicar a existência de erro material, carece de idoneidade probatória para embasar a averbação corretiva de elemento identificador do titular do domínio. Admitir o contrário seria permitir que a manifestação unilateral de vontade substituísse comprovação da situação cadastral emanada do órgão competente, em detrimento da segurança jurídica.

Ressalte-se que, no caso, seria suficiente, por exemplo, o “Comprovante de Situação Cadastral no CPF” expedido pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, ou documento público similar que demonstrasse, de modo inequívoco, o número correto e, se existente, a destinação da inscrição pretérita lançada na matrícula. Trata-se de documento oficial a pleno alcance da apelante.

Outrossim, não se ignora a orientação jurisprudencial no sentido da mitigação das exigências de especialização subjetiva, notadamente em casos de comprovada e extrema dificuldade de localização de dados identificadores. Nessas situações, admite-se excepcional dispensa de dados obrigatórios, à vista de elementos alternativos e idôneos de identificação (CSM/SP, Apelação Cível: 1002800-60.2016.8.26.0539; CSM/SP, Apelação Cível: 0039080-79.2011.8.26.0100). A excepcionalidade impede a liberação quando a deficiência de qualificação compromete a certeza quanto à identidade do titular (CSM/SP, Apelação Cível 1040487-41.2023.8.26.0405).

No caso em tela, a flexibilização é inviável. Primeiramente, a comprovação do número correto do CPC, como se viu, nada tem de difícil.

Depois, não se cuida de mera ausência de dado qualificativo, a ser suprido por outros elementos, mas de efetivo conflito entre inscrições atribuídas ao mesmo titular. Ao invés de autorizar dispensa, a dissonância exige esclarecimento, pois a coexistência de dois números de CPF na cadeia dominial – um na matrícula, outro no título – não pode ser simplesmente ignorada, sob pena de perpetuar-se erro patente no novo assento imobiliário.

Tampouco socorre a apelante o fato de se tratar de matrícula por transporte. Dispõe o subitem 58.2, Cap. XX, Tomo II, das NSCGJ, invocado nas razões recursais:

58.2. Não será considerada irregular a abertura de matrícula que segue os dados existentes no registro anterior (matrícula por transporte), bem como o registro do título subsequente, quando houver coincidência entre os dados. (Grifei).

Como se observa, a norma é expressa ao dispor que somente será considerada regular a abertura de matrícula que segue os dados do registro anterior, bem como o registro do título subsequente, “quando houver coincidência entre os dados”.

Ora, é precisamente a coincidência de dados requisito expresso da norma que inexiste no caso concreto. Havendo divergência patente quanto ao número de CPF do titular do domínio, o dispositivo normativo não se aplica. Sua finalidade vale salientar é simplificar a migração cadastral entre circunscrições quando os dados são fidedignos, e não imunizar o novo assento contra correção de erro ou imprecisão.

Em outras palavras, acolher a tese recursal implicaria transportar para a nova matrícula inscrição sabidamente eivada de imprecisão informacional, comprometendo a fidedignidade do registro e violando a exatidão que dele se espera. A prévia retificação, portanto, é indispensável.

Em suma, a divergência do número de CPF do proprietário tabular, entre a matrícula de origem e o título, constitui óbice legítimo à abertura da matrícula por transporte e ao registro do formal de partilha, somente superável mediante apresentação de documento oficial idôneo à comprovação da correta identidade cadastral do titular, em estrita observância aos princípios da especialidade subjetiva, da continuidade e da segurança jurídica.

Ante o exposto, e considerando, ainda, o parecer ministerial convergente, nego provimento à apelação, mantendo-se a r. sentença que julgou procedente a dúvida e a qualificação negativa do título.

SILVIA ROCHA

Corregedora Geral da Justiça e Relatora (TJSP de 13.10.2026 – SP)


Fonte: TJ/SP

Publicação: Portal do RI (Registro de Imóveis) | O Portal das informações notariais, registrais e imobiliárias!

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